quarta-feira, 23 de março de 2011

Among Us (Entre nós)


Cheirava mal, terrivelmente mal, trazia vestido um casaco esburacado e na cabeça tinha enfiado até às orelhas um gorro seboso.
Balbuciou qualquer coisa, não era português. Parecia que queria ir para algum lado, para algum destino entre as linhas.
Abordou-me, não percebi o que disse e estava com pressa, depois de um dia de trabalho queria chegar a casa, queria o meu merecido descanso do guerreiro.
Virei as costas e entrei no metro.
Seguiu-me. Sentei-me e ele afastou-se.
Numa das estações entrou um rapaz novo, com uma caixa de sapatos com uma ranhura na qual estava aposto um letreiro: "Tenho fome, comida".
Nessas alturas toda a gente vira a cara, baixa os olhos e finge estar a pensar em qualquer outra coisa que não a vergonha de não dar uma moeda a quem parece dela precisar.
De repente oiço o som de uma moeda a cair na caixa, um som vazio e oco, levanto o olhar de soslaio e para meu espanto, o homem que me havia abordado estava a dar uma moeda ao pedinte.
Comovo-me.
Num instante nos meus ouvidos relembro:"Jardim Zoológico", o homem quer ir para a estação do Jardim Zoológico, apercebi-me!
Levanto-me e aproximo-me dele.
Olha espantado para mim e pergunto-lhe: "Jardim Zoológico?"
Num sorriso desdentado acena que sim, abre muito os olhos e diz num português quase incompreensível:"Desculpa".
É também a minha estação. Saimos e num gesto de amor, de amor pelo ser humano, pela partilha do pouco de quem nada tem, abro a carteira e discretamente tiro a maior moeda que encontro. Dou-lha.
Com os olhos a brilhar aceita, volta a sorrir e agradece, vai à vida dele e eu à minha.
Mas naquele momento juro que consegui sentir-lhe as asas!

sábado, 19 de março de 2011

A viagem





Vem pela mão do pai e senta-se ao meu lado. Olha para mim de soslaio como se nunca me tivesse visto (e nunca viu) e após uns breves instantes decide que sou confiável e esboça-me um sorriso tímido mas travesso. Eu retribuo. Envergonhada baixa o olhar. Olha para a bolacha Maria meia roída, húmida e pegajosa que traz na mão. Paramos. levanta os olhos para o pai e pergunta entusiasmada: "Podemos dar mais uma volta? Podemos? Podemos andar outra vez?!" O pai acena com a cabeça e ela olha para mim e solta um risinho cúmplice, como se eu estivesse a gostar tanto daquela viagem como ela. Prosseguimos.
Dá mais uma trinca na bolacha. Paramos de novo. Olha expectante para o pai e ele paciente acena com a cabeça, ela volta a olhar-me e sorri. Nesse momento, sou invadida por uma nostalgia e ternura que não consigo explicar, lembro-me de tudo, lembro-me das viagens que fazia pela mão do meu pai e como para mim, tal como para aquela menina que nunca havia visto antes, andar no Metropolitano de Lisboa se assemelhava a uma volta num maravilhoso e mágico carrossel!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Quem tem um amigo tem tudo!



Digo-lhe aos berros: "Pára de me chatear!", que raio, logo hoje que não me apetece ver ou falar com ninguém!
Tive um dia de cão, cheio de desilusões e frustrações.
Não percebo as pessoas! Cheguei à brilhante conclusão que os animais são mesmo melhores, ao menos os cães são fiés! E não falo da fidelidade amorosa, mas daquela que muitos tendem a esquecer, a gratidão, a honra... valores há muito riscados dos dicionários de gente que se diz tão virtuosa.
"O que foi?", responde! "Não me digas que te zangaste com o mundo outra vez?!"
"Com o mundo todo não, só com alguns dos seres acéfalos que o povoam!"
"Hei!!, eu por acaso também aqui vivo, sabes?"
"O.k. desculpa, hoje não é um bom dia!"
"Isso eu já percebi..." silêncio... "vamos tomar um café? Para ver se te animas?"
"Não! Estou de birra e não quero!"
"Não queres a minha companhia? Está bem" diz amuado.
"Espera, desculpa" respiro fundo "Sim, vamos tomar café!"
E fomos!
Ao fim de 5 minutos na companhia do meu amigo estava a rir-me até me doer a barriga!
"Então, já passou o que tinhas?" Pergunta ele com ar pachorrento e toda a paciência do mundo.
"O que eu tinha sim, o que eu tenho felizmente não!" Sorrio e cofesso-lhe "O que eu tenho é um amigo, e quem tem um amigo tem tudo!"

domingo, 28 de novembro de 2010

O meu grande sonho é vir a ser uma Grande Cabra!


Um dia ainda hei-de conseguir! Ser uma cabra! Uma verdadeira cabra! daquelas que usam saltos vertiginosos, vão dia sim dia não ao cabeleireiro e passam por cima de tudo e de todos sem dó nem piedade nem uma réstia de remorsos!
Sim! Um dia também eu hei-de ser assim! Cheia de frenicoques! Toda a gente se vai encolher só de entrar em contacto com o meu olhar gélido e a minha cara de matadora.
Farei o que me der na real gana e dormirei tranquila à noite, porque não terei este grilo falante que confortavelmente se instalou e vive alegremente nas águas furtadas do meu cérebro!
Vou meter a Cruela de Ville num chinelo e a Bruxa má da Branca de Neve parecerá alguém confiável e amoroso.
Serei repugnante e desprezível, não me preocuparei com os sentimentos e fragilidades de vivalma.
Parece que nos dias de hoje só as grandes cabras de safam, só elas lá do alto das suas torres de marfim conseguem de facto atingir alguma coisa.
Por enquanto tenho coração, porcaria de coração! Hei-de arranjar uma fórmula mágica de o aniquilar! De o amarrar e fazer refém das minhas aspirações! De o calar para sempre, até ser negro e frio e bater só para me fazer feliz! Até ser uma grande cabra!
Depois, quando finalmente isso acontecer almejarei ser outra coisa, quem sabe outro animal qualquer...
Por outro lado, se calhar nem é preciso muito esforço! É que depois de ser uma grande cabra, a vaca e o burro veêm por acréscimo!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A estúpida que tentou contactar de momento não está disponível. Por favor tente outra estúpida!




Não te perdoo. desta vez não pedoo mesmo.
Já estou cansada das tuas desculpas esfarrapadas, dos teus medos e ângústias que só servem para me lixar.
Dei-te vezes de mais o benefício da dúvida. Fiz o meu e o teu trabalho, dei-te o meu ombro para chorar e fiz pior, chorei contigo.
Tomei as tuas dores e defendi-te como uma mãe leoa defende uma cria. Dei-te o melhor de mim, sabias que podias sempre contar comigo, que eu faria qualquer coisa para te desenrascar.
Fui tua amiga.
Dei-te a mão e percorri contigo o caminho, às vezes tão complicado, da vida. Ajudei-te a superar os teus obstáculos, sorri e alegrei-me com as tuas vitórias, que genuinamente senti também minhas e magooei-me com as tuas derrotas.
Quando eu precisei de ti, quando eu mais precisei não estavas lá. Num acto de cobardia metes-te o rabinho entre as pernas e fugis-te.
Por isso alegro-me, porque estou livre! Porque a partir de agora pude deixar-te ir.
Arranja outro hospedeiro, que este cansou-se da tua parasitagem!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Breve historieta de um advogado de província




Lá vem pela hora matutina, quase madrugada, a cacimbar.
Veste o seu fato domingueiro, todo empertigado e nos pés os melhores sapatos que têm, comprados de véspera pela "mãezinha" na feira por um par de tostões.
Na mão traz a sua pasta de couro, a estrear. Lá dentro não traz nada, vem vazia, tão vazia como a sua cabeça, no entanto aquela mala assim envergada dá-lhe um certo "je ne sais quoi", sente-se poderoso e pronto a dominar o mundo.
Na outra mão traz o farnel, a merenda, cheia de iguarias preparadas a preceito pela mãezinha, desde chouriças a pasteis de bacalhau, que agora "o meu menino é doutor!" para o caso de ser arremetido de uma súbita larica a meio caminho entre as Beiras e a capital.
Vai todo cheio de si, agora que é doutor! Vai trabalhar para um grande escritório. Nem que o torturem até à morte vai confessar que foi o seu querido paizinho, amigo do mui ilustre, que lhe arranjou o emprego.
Sobe para o comboio, a mãezinha dá-lhe dois beijos repenicados na face e recomenda: "Olha que tu come, alimenta-te rapaz que estás um pau de virar tripas! E já sabes, nada de jogo nem mulheres! Que lá na capital são todas umas doidivanas!" "Ai meu rico filho, vai lá então à tua vida e não amarrotes o fato que te fica tão bem e tanto trabalho me deu a engomar, e mete a camisa para dentro!"
E lá foi ele, cheio de sonhos, esperanças, alegria e chouriças rumo a Lisboa.

Chegado à cidade grande empancou, abriu a boca de espanto e qual burro a contemplar um palácio, ficou por uns momentos a deixar que a cidade lhe entrasse pelos olhos adentro e lhe enchesse a alma. 
Rapidamente se recompôs, tomou um táxi, que agora era doutor e não podia andar de transportes, dissera-lhe a sua rica mãezinha que parecia mal, e pode contrariar-se tudo e todos mas ai de quem contrariar a mãezinha, e rumou à sua nova morada, um quartinho 2 por 3, na casa velha de uma também velha amiga do seu mais velho ainda avô.
Instalou-se e desceu à cozinha onde se refastelou com os petiscos que a octagenária senhora lhe havia preparado: " Ó menino veja lá, está bem assim? Ou quer mais alguma coisinha? Desculpe, a casita é modesta mas é limpinha! Que eu sou pobre mas  sou asseada!"
Qualquer outro seria invadido por um enorme sentimento de gratidão e ternura por aquela velha despachada e solicita, mas não ele. Afinal agora era doutor, não se compadecia cá com gestos bem avontadados de gentinha como aquela. Pagava-lhe uma renda justa. De mais a mais, na sua mente tacanha e no seu coração frio e mirrado, a velha não fazia mais que a sua obrigação. Era doutor, ilustre, merecia ser pomposamente tratado! E o raio da velha, a tratá-lo por menino! Menino?! Menino não! Sr. Doutor. Haveria de lhe realçar isso em momento oportuno! Mas não agora, agora iria tratar de se acomodar e de descansar um pouco que estava moído da viagem.
Logo que se recompôs rumou ao seu novo domicílio profissional, tinha vindo todo o caminho da Beira para Lisboa a imaginá-lo... Ah, teria um ar austero e pesado, digno do seu novo ocupante.
Mais uma vez foi carregado com as chouriças que a sua mãezinha lhe havia mandado para dar ao ilustre patrono tendo-lhe recomendado: "Leva estas para dar ao Sr. Doutor, são caseirinhas ali da D. Alice, ele até vai lamber as beiças! E não te esqueças de lhe dizer que eu e o teu pai estamos muito gratos de ele ter acedido dar-te trabalho, é pessoa de bem e olha que como ele já não se fazem!"
Assim fez e para se sentir algum conforto apertou as chouriças contra o peito, inalou o seu divinal aroma fumado e tocou energicamente à campainha.


Abriu-lhe a porta uma rapariga energética e despachada que lhe perguntou quem era e ao que vinha.
Identificou-se cheio de pompa e circunstância, encheu o peito e rematou, sou Doutor Advogado.
A eficiente funcionária, apercebendo-se da soberba de tão altivo floreado  rematou: " E eu sou descendente do Ilustre Adão da mui distinta Eva e calhou-me em rifa, para mal dos meus pecados vir para aqui trabalhar!" Sorriu e deixou-o completamente petrificado à porta de chouriças na mão.
"Olhe lá, vai entrar ou ficar para aí especado muito direito como se tivesse engolido um garfo?"
Como é que ela se atrevia??? A falar-lhe naqueles termos??!! Não podia ser, iria ter uma conversa com o Dr. para que a despedisse, que modos eram aqueles? Rudes e Crus?
" Se vem para trabalhar há ali uma mesinha ao fundo, não tem computador, isso tem que ser você a trazer, ah, e outra coisa, é você a tratar das suas coisas que eu tenho mais que fazer! Emergências ligue 112 e milagres também não faço, para isso peça-os a quem de direito, que no caso é a Nossa Sra. de Fátima, ou se estiver muito enrascado ao São Judas Tadeu que é o Santo padroeiro das causas impossíveis! Estou atolada em trabalho e daqui a nada tenho correio para despachar! O Dr. está em reunião mas assim que terminar virá falar consigo! Da minha parte é tudo! Se precisar de alguma coisa desenrasque-se que aqui é como na tropa!"
Foi momentaneamente assomado por uma tontura, uma quebra de tensão, ficou branco como a cal e gelado, isto na sua óptica, porque para uma pessoa com um palminho de testa do que ele padecia era de um achaque, um fanico de menino mimado e contrariado!
O seu escritório! A sua secretária! A sua janela com vista para o Castelo! Tudo se lhe desmoronou diante dos olhos numa fracção de nano segundo! E aquela criatura odiosa! Quem é que se julgava?? Gentinha! Ele era superior a tudo aquilo, era feito de uma massa cósmica altamente patenteada, de qualidade superior, se fosse uma alheira seria de Mirandela, das caseiras e puras.
Não, isto não ía ficar assim. Será que era mesmo ali o escritório do seu "Padrinho"? Era, confirmou e reconfirmou! Não podia ser!
Sentou-se direito como um fuso na cadeira mais próxima e, depois de ter respirado fundo pelo menos cinquenta vezes, esperou.
Do interior do escritório velho e bafiento, eis que surgiu uma criatura roliça e bem disposta, com um sorriso franco e olhar sagaz. Era ele, o seu patrono, o seu modelo a aspirar! Cumprimentou-o com uma vénia e com o floreado costumeiro, entregando-lhe as chouriças como se fossem o Santo Graal. O velho advogado teve um ataque de riso monumental e soltou uma gargalhada estridente de quem ri com vontade. "Mas olha lá rapaz, tu és parvo ou quê?!" Disse alto e bom som desferindo-lhe uma valente murraça nos costados que o fez desequilibrar, "Dá mas é cá um bacalhau e deixa-te dessas mariquices! A não ser que gostes desse género!"
De surpresa ou choque emudecer, começando a gaguejar apalermado.
"A tua mãe disse-me que querias trabalhar! Há aqui muito que fazer! Não te pago porque tens ainda muito que aprender e quanto muito podia era cobrar-te para te ensinar, o que só não faço em consideração ao teu velho pai, que é meu amigo e um gajo à maneira! Aquela ali é a nossa secretária, uma rapariga impecável que trabalha há muitos anos comigo, não admito reclamações dela!"
Amanhã vais já para o Tribunal, que quanto mais cedo começares melhor, ah, e quanto às chouriças agradece à tua mãe mas não as posso aceitar, tenho o colesterol alto e qualquer dia dou um peido e esta enorme barriga rebenta! Não vai ser um espectáculo digno de se ver!" Virou costas, e como se se estivesse a rir de uma piada que só ele entendeu desapareceu para as profundezas do seu gabinete.
Aterrado, vendo o seu brilhante e auspicioso futuro a desmoronar-se diante os seus olhos, arredou dali pé, com as chouriças à tira colo, pensando em chegar a casa e esfregar-se bem com sabão azul e branco (recomendado pela sua rica mãezinha) para tirar a sujidade que sentia no corpo e na alma!

(Continua)

O Bigode do Sr. Antunes (mas podia ser outro Sr. qualquer)





Ora, o assunto do dia são os bigodes! Não são a crise mundial, a nacional, o PEC, o FMI e o facto de estarmos a ser vendidos aos chineses! Não, o tema de que me ocupo hoje incide sobre esse facto tão português, tão fundamental, os Bigodes!

Sim, os bigodes, aqueles pelos horrorosos que se situam mesmo acima da boca e muito macho insiste que lhe dá um certo charme.

Se calhar até dá e sou eu que não percebo nada de bigodes ou de charme!

O que é engraçado é perceber que aquele bigode, que o Sr. Antunes (podia ser outro Sr. qualquer, que aqui não descriminamos ou vangloriamos) tanto estima, não passa de pintelhos agarrados à cara.

Come a sopa com o bigode, assoa-se e deixa vestígios de ranho no bigode, fuma e o bigode fica cheio de nicotina, já para não falar de algumas actividades sexuais que o dito Sr., Antunes ou outro qualquer, possa vir a fazer também com o bigode! (Bom, confesso que agora fiquei com medo!)



Pois, mas o que o Sr. Antunes mais gosta, na verdade e no fundo do seu âmago, não é o seu fantástico bigode, é a combinação explosiva entre ele e a sua unhaca do dedo mindinho, unhaca polivalente, mas isso fica para outro dia...