Um dia ainda hei-de conseguir! Ser uma cabra! Uma verdadeira cabra! daquelas que usam saltos vertiginosos, vão dia sim dia não ao cabeleireiro e passam por cima de tudo e de todos sem dó nem piedade nem uma réstia de remorsos!
Sim! Um dia também eu hei-de ser assim! Cheia de frenicoques! Toda a gente se vai encolher só de entrar em contacto com o meu olhar gélido e a minha cara de matadora.
Farei o que me der na real gana e dormirei tranquila à noite, porque não terei este grilo falante que confortavelmente se instalou e vive alegremente nas águas furtadas do meu cérebro!
Vou meter a Cruela de Ville num chinelo e a Bruxa má da Branca de Neve parecerá alguém confiável e amoroso.
Serei repugnante e desprezível, não me preocuparei com os sentimentos e fragilidades de vivalma.
Parece que nos dias de hoje só as grandes cabras de safam, só elas lá do alto das suas torres de marfim conseguem de facto atingir alguma coisa.
Por enquanto tenho coração, porcaria de coração! Hei-de arranjar uma fórmula mágica de o aniquilar! De o amarrar e fazer refém das minhas aspirações! De o calar para sempre, até ser negro e frio e bater só para me fazer feliz! Até ser uma grande cabra!
Depois, quando finalmente isso acontecer almejarei ser outra coisa, quem sabe outro animal qualquer...
Por outro lado, se calhar nem é preciso muito esforço! É que depois de ser uma grande cabra, a vaca e o burro veêm por acréscimo!

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