Lá vem pela hora matutina, quase madrugada, a cacimbar.
Veste o seu fato domingueiro, todo empertigado e nos pés os melhores sapatos que têm, comprados de véspera pela "mãezinha" na feira por um par de tostões.
Na mão traz a sua pasta de couro, a estrear. Lá dentro não traz nada, vem vazia, tão vazia como a sua cabeça, no entanto aquela mala assim envergada dá-lhe um certo "je ne sais quoi", sente-se poderoso e pronto a dominar o mundo.
Na outra mão traz o farnel, a merenda, cheia de iguarias preparadas a preceito pela mãezinha, desde chouriças a pasteis de bacalhau, que agora "o meu menino é doutor!" para o caso de ser arremetido de uma súbita larica a meio caminho entre as Beiras e a capital.
Vai todo cheio de si, agora que é doutor! Vai trabalhar para um grande escritório. Nem que o torturem até à morte vai confessar que foi o seu querido paizinho, amigo do mui ilustre, que lhe arranjou o emprego.
Sobe para o comboio, a mãezinha dá-lhe dois beijos repenicados na face e recomenda: "Olha que tu come, alimenta-te rapaz que estás um pau de virar tripas! E já sabes, nada de jogo nem mulheres! Que lá na capital são todas umas doidivanas!" "Ai meu rico filho, vai lá então à tua vida e não amarrotes o fato que te fica tão bem e tanto trabalho me deu a engomar, e mete a camisa para dentro!"
E lá foi ele, cheio de sonhos, esperanças, alegria e chouriças rumo a Lisboa.
Chegado à cidade grande empancou, abriu a boca de espanto e qual burro a contemplar um palácio, ficou por uns momentos a deixar que a cidade lhe entrasse pelos olhos adentro e lhe enchesse a alma.
Rapidamente se recompôs, tomou um táxi, que agora era doutor e não podia andar de transportes, dissera-lhe a sua rica mãezinha que parecia mal, e pode contrariar-se tudo e todos mas ai de quem contrariar a mãezinha, e rumou à sua nova morada, um quartinho 2 por 3, na casa velha de uma também velha amiga do seu mais velho ainda avô.
Instalou-se e desceu à cozinha onde se refastelou com os petiscos que a octagenária senhora lhe havia preparado: " Ó menino veja lá, está bem assim? Ou quer mais alguma coisinha? Desculpe, a casita é modesta mas é limpinha! Que eu sou pobre mas sou asseada!"
Qualquer outro seria invadido por um enorme sentimento de gratidão e ternura por aquela velha despachada e solicita, mas não ele. Afinal agora era doutor, não se compadecia cá com gestos bem avontadados de gentinha como aquela. Pagava-lhe uma renda justa. De mais a mais, na sua mente tacanha e no seu coração frio e mirrado, a velha não fazia mais que a sua obrigação. Era doutor, ilustre, merecia ser pomposamente tratado! E o raio da velha, a tratá-lo por menino! Menino?! Menino não! Sr. Doutor. Haveria de lhe realçar isso em momento oportuno! Mas não agora, agora iria tratar de se acomodar e de descansar um pouco que estava moído da viagem.
Logo que se recompôs rumou ao seu novo domicílio profissional, tinha vindo todo o caminho da Beira para Lisboa a imaginá-lo... Ah, teria um ar austero e pesado, digno do seu novo ocupante.
Mais uma vez foi carregado com as chouriças que a sua mãezinha lhe havia mandado para dar ao ilustre patrono tendo-lhe recomendado: "Leva estas para dar ao Sr. Doutor, são caseirinhas ali da D. Alice, ele até vai lamber as beiças! E não te esqueças de lhe dizer que eu e o teu pai estamos muito gratos de ele ter acedido dar-te trabalho, é pessoa de bem e olha que como ele já não se fazem!"
Assim fez e para se sentir algum conforto apertou as chouriças contra o peito, inalou o seu divinal aroma fumado e tocou energicamente à campainha.
Abriu-lhe a porta uma rapariga energética e despachada que lhe perguntou quem era e ao que vinha.
Identificou-se cheio de pompa e circunstância, encheu o peito e rematou, sou Doutor Advogado.
A eficiente funcionária, apercebendo-se da soberba de tão altivo floreado rematou: " E eu sou descendente do Ilustre Adão da mui distinta Eva e calhou-me em rifa, para mal dos meus pecados vir para aqui trabalhar!" Sorriu e deixou-o completamente petrificado à porta de chouriças na mão.
"Olhe lá, vai entrar ou ficar para aí especado muito direito como se tivesse engolido um garfo?"
Como é que ela se atrevia??? A falar-lhe naqueles termos??!! Não podia ser, iria ter uma conversa com o Dr. para que a despedisse, que modos eram aqueles? Rudes e Crus?
" Se vem para trabalhar há ali uma mesinha ao fundo, não tem computador, isso tem que ser você a trazer, ah, e outra coisa, é você a tratar das suas coisas que eu tenho mais que fazer! Emergências ligue 112 e milagres também não faço, para isso peça-os a quem de direito, que no caso é a Nossa Sra. de Fátima, ou se estiver muito enrascado ao São Judas Tadeu que é o Santo padroeiro das causas impossíveis! Estou atolada em trabalho e daqui a nada tenho correio para despachar! O Dr. está em reunião mas assim que terminar virá falar consigo! Da minha parte é tudo! Se precisar de alguma coisa desenrasque-se que aqui é como na tropa!"
Foi momentaneamente assomado por uma tontura, uma quebra de tensão, ficou branco como a cal e gelado, isto na sua óptica, porque para uma pessoa com um palminho de testa do que ele padecia era de um achaque, um fanico de menino mimado e contrariado!
O seu escritório! A sua secretária! A sua janela com vista para o Castelo! Tudo se lhe desmoronou diante dos olhos numa fracção de nano segundo! E aquela criatura odiosa! Quem é que se julgava?? Gentinha! Ele era superior a tudo aquilo, era feito de uma massa cósmica altamente patenteada, de qualidade superior, se fosse uma alheira seria de Mirandela, das caseiras e puras.
Não, isto não ía ficar assim. Será que era mesmo ali o escritório do seu "Padrinho"? Era, confirmou e reconfirmou! Não podia ser!
Sentou-se direito como um fuso na cadeira mais próxima e, depois de ter respirado fundo pelo menos cinquenta vezes, esperou.
Do interior do escritório velho e bafiento, eis que surgiu uma criatura roliça e bem disposta, com um sorriso franco e olhar sagaz. Era ele, o seu patrono, o seu modelo a aspirar! Cumprimentou-o com uma vénia e com o floreado costumeiro, entregando-lhe as chouriças como se fossem o Santo Graal. O velho advogado teve um ataque de riso monumental e soltou uma gargalhada estridente de quem ri com vontade. "Mas olha lá rapaz, tu és parvo ou quê?!" Disse alto e bom som desferindo-lhe uma valente murraça nos costados que o fez desequilibrar, "Dá mas é cá um bacalhau e deixa-te dessas mariquices! A não ser que gostes desse género!"
De surpresa ou choque emudecer, começando a gaguejar apalermado.
"A tua mãe disse-me que querias trabalhar! Há aqui muito que fazer! Não te pago porque tens ainda muito que aprender e quanto muito podia era cobrar-te para te ensinar, o que só não faço em consideração ao teu velho pai, que é meu amigo e um gajo à maneira! Aquela ali é a nossa secretária, uma rapariga impecável que trabalha há muitos anos comigo, não admito reclamações dela!"
Amanhã vais já para o Tribunal, que quanto mais cedo começares melhor, ah, e quanto às chouriças agradece à tua mãe mas não as posso aceitar, tenho o colesterol alto e qualquer dia dou um peido e esta enorme barriga rebenta! Não vai ser um espectáculo digno de se ver!" Virou costas, e como se se estivesse a rir de uma piada que só ele entendeu desapareceu para as profundezas do seu gabinete.
Aterrado, vendo o seu brilhante e auspicioso futuro a desmoronar-se diante os seus olhos, arredou dali pé, com as chouriças à tira colo, pensando em chegar a casa e esfregar-se bem com sabão azul e branco (recomendado pela sua rica mãezinha) para tirar a sujidade que sentia no corpo e na alma!
(Continua)

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